domingo, 21 de agosto de 2011
O arquiteto
A cada dia que passa essa coisa de passar pelo mesmo caminho se torna mais irritante. Mas não tem jeito, onde quer que eu vá andando eu preciso passar por essa rua estreita e lotada de bares fedorentos e cheia de buracos. Durante um tempo essa mesma rua me deixava entediada e só mais lá frente, depois da curva fechada começava a se ver algo interessante, como algumas lojas que trabalham com vidros e uma padaria bonitinha. Mas antes, só cascalhos, calçadas mal arrumadas e um clima estranho de pobreza e... ah, não vou conseguir explicar direito meu sentimento, minha antipatia por aquela rua.
Mas um dia aconteceu uma pequena mudança.
Uma casinha foi arrumada e um pedaço da calçada estava mais bonito, com azulejos bem colocados, um portão automático e uma fachada elaborada. Vou confessar que só fui dar importancia a isso quando a porta de vidro recebeu uma faixa adesiva dizendo que se tratava de um escritório de um arquiteto. Engraçado, por mais que eu passe todos os dias por lá nao me lembro o que exatamente diz a faixa, nem mesmo a cor.
A sala é mediana, com os móveis de desenho numa mesa de vidro, um banco de madeira bem perto da porta, uma luminária acima das folhas e papéis espalhados pra todo lado. Tem um computador na sala, eu acho, e alguns livros em prateleiras altas. A cortina é de persianas, e sempre que uma plaquinha pendurada na porta anuncia: ABERTO eu consigo ver mais detalhes e até mesmo vislumbrar uma parte do desenho.
Mesmo passando nessa bendita rua todos os dias eu não me canso de olhar lá pra dentro e procurar algo a mais. Parece mágica essa sala, com o ar limpo que ela parece ter e como se alguém muito inteligente construísse algo importante sentado naquele banquinho de madeira.
Uma vez eu vi uma garotinha meio gordinha, com os cabelos lisos até o meio das costas sentada observando o homem desenhar. Eu só vi isso, não vi o rosto do homem, passei muito rápido e eu nem poderia ficar encarando a porta como uma louca.
Sim, claro que cogitei entrar no escritório e conversar com o dono, fazer algumas perguntas, saciar minha curiosidade. Mas que graça teria depois? Que graça teria passar ali e saber tudo daquela sala?
Acho que o legal é isso mesmo, continuar passando por aqui todos os dias, olhar rapidamente pra dentro dessa sala mágica e imaginar o que sai daqui, quem desenha e quem cuida desses livros.
De resto, a cidade é a mesma, a rua é a mesma.
Bruna Geovanini
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